A torta de maça

Estou assistindo com algum atraso de duas décadas a série Os Sopranos. Todos os dias, pelo menos um episódio. Naquele domingo, fiquei no sofá aterrada com a situação apresentada. O gângster Tony Soprano suborna deputados, inclusive um parlamentar negro, para comprar uma área numa região decrépta da cidade, habitada por negros pobres. Ao final do episódio, as pessoas são expulsas das casas numa ação violenta. Negros pagos para causar terror e retirar os antigos moradores das casas. Devidamente higienizada, a rua seria gentrificada e o negócio atrairia jovens brancos yupies.

Corta para eu na cozinha, preparando uma torta de maçã…


É permitido às pessoas negras o direito à falha?

A desumanização tem muitas camadas. Se de um lado, ela representa o roubo de dignidade, autodeterminação, sequestro das oportunidades e da possibilidade de uma vida plena, na outra direção, a desumanização também é a premissa de que para ser aceito é necessário ser perfeita, perfeito. Ou quando há uma imperfeição, ela é fruto de fatores estruturais, mas jamais um traço de subjetividade. Transitamos entre sermos considerados párias ou super-mulheres/super-homens. Os dois extremos são igualmente perigosos e dizem respeito ao fato que a nossa existência ainda é tensionada pelos essencialismos e pela pressuposição de uma incapacidade nossa de se autodefinir.

Esse…


Escrever tem sido a coisa mais difícil dos últimos tempos. Escrever tem sido impossível. Escrever projeto eu consegui. Escrever matéria também. No meu diário com muito esforço, enorme, eventualmente. De minha tese estou apartada. Não consigo. Empacada no capítulo que demanda de mim, escrever sobre os afetos. Ao sentar aqui, nesse esforço de escrita, percorre-me inteira um filme dos últimos dias. Dos últimos dias desde que esse ano tomou prumo com pandemia, acompanhando sessões de quimioterapia de minha mãe, fazendo um esforço enorme para ser funcional e positiva. Dias e dias dormindo em hospital, conversando quase que exclusivamente com o…


16 de agosto. Dia de São Roque e São Lázaro e também aqui na Bahia, sincreticamente, reverencia-se Obaluaê. Mais um domingo estou dentro de um hospital ou clínica, variações sobre o mesmo tipo de espaço. À beira da cama de minha mãe. Enquanto escrevo, ouço sua respiração funda e o ronco baixinho do sono da tarde. Minha irmã envia fotos das velas acesas diante das imagens de ambas entidades, a católica e a afro-brasileira. Nós somos essa esquina. Nas mãos minha mãe leva o terço que fora de minha avó e perguntara-me a pouco se havia água em sua quartinha.


A carta Lua no Tarot. Procure saber.

Um amor tinha acabado e eu estava triste. Fui almoçar com uma amiga querida e ela me disse “vou te dar de presente uma consulta de tarot”, seria com uma pessoa de extrema confiança dela e eu amo oráculo. Amo. Por isso, jogo tarot já há muito tempo. E tudo o que uma mulher com o coração partido precisa é de um oráculo. Agendei a consulta. Fui para uma meditação a lua cheia com rito do útero. Porque tudo o que uma mulher com o coração partido precisa é de estar com outras mulheres, meditando e respirando junto, vendo dores…


Thelma, vencedora do BBB 2020.

A noção de representação é intimamente ligada a ausência, ao estabelecimento de um signo que ocupa o lugar de algo ou alguém que não está. A pensadora indiana Gayatri Spivak resume a noção de representar em duas: “falar por”, nas dimensões políticas e do campo de decisão de uma sociedade e “re-presentação”, na dimensão estética e da espetacularidade. Dito isso, é importante que pensar que representatividade perpassa a vida democrática, bem como a construção de narrativas e estéticas, que conformam uma coletividade.

Nas sociedades coloniais, os subalternizados e racializados estão ausentes historicamente das duas dimensões de representação: raramente ocupam posições…


Obra de Adriana Varejão.

Eu sou educomunicadora e já realizei algumas oficinas discutindo sobre questões raciais e de gênero, através de análise de produtos de comunicação. Faz tempo que não conduzo oficinas com jovens, mas há quatro, cinco anos atrás, nessas práticas sempre tinha algum momento de conversas sobre autodeclaração, compreender como meninos e meninas periféricos tem uma percepção sobre sua raça, classe. Vivendo em Salvador, quase que a totalidade das turmas era de negros e pardos, raros brancos. E naqueles momentos, ainda assim, discutiamos sobre a aplicação do termo pardo. E eu sempre brincava que pardo é papel.

Bem. Eu já fui parda…


Sei pouco de minha história. Do pouco que sei, muito catei nas minhas buscas espirituais e de cura, por modos holísticos. Sei que tenho um avô, que tirou uma flecha das minhas costas. Desde que ele me fez esse cuidado, não sinto mais dor no ombro direito… dor que sempre me acompanhou. Esse avô fala comigo toda vez que aspiro rapé. Ele é bem caboclo, me contou quem o viu me cuidando do machucado. Ele apontou para a flecha anel que carrego nos dedos.

Sei que esse avô é tupinambá. Sei porque ele falou comigo numa das vezes. Sei porque…


Tem uma carta no Tarot chamada A Temperança: nela um anjo traz nas mãos cântaros e passa de um para o outro água. Quando essa figura sai num jogo, entendemos que não é hora de grandes movimentos. É hora de espera. Convalescença. Houve um ferimento, uma grande mágoa, uma ferida, um corte. É preciso parar, esperar e seguir ali… temperando, mornando a água para passar por sobre o machucado. A Temperança é a espera. É o reconhecimento de que a pressa deixou de urgir: aqui ela não tem vez.

Há também o tempo do resguardo em diferentes egrégoras espirituais: evita-se…

Monica Santana

Sou Multidisciplinar. Jornalista, performer, dramaturga, atriz. Educadora e Doutoranda em Artes Cênicas. Quatro planetas em Sagitário: Seta apontada para o Sol.

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